segunda-feira, 18 de junho de 2007









AS NARRATIVAS DESTE BLOG SÃO TODAS VERÍDICAS.

Conheça um pouco da história da Feira de Antiguidades do Bexiga.

Saiba como eu consegui, por um simples acaso, obter um espaço numa das mais populares feiras de antiguidades do Brasil...

Como me transformei, de simples desenhista freelancer, em marchand e comerciante de obras de artes.

Como consegui fazer um real virar sete mil dólares!

Conheça a história das CAIXAS DE PENAS DE OURO,

e muito mais!

domingo, 17 de junho de 2007


--------Fotos de Abel Fernandes - SP 20 / 11 / 2005 (clique sobre as fotos para ampliá-las.)
“EU E O BIXIGA”, OU
COMO ME TORNEI UM ANTIQUÁRIO...


COMO TUDO COMEÇOU


Foi em outubro de 1980.
O Márcio, meu filho mais velho, hoje um dos mais conhecidos marchand do Brasil, ia completar oito anos de idade e eu queria dar-lhe um belo presente de aniversário. Perguntei: --- O que você quer ganhar? Ele respondeu-me: um skate importado!
No outro dia fui a várias lojas esportivas no centro de São Paulo e constatei tristemente que o preço desse skate estava muito acima de minhas possibilidades financeiras.
Nesse tempo eu estava começando um escritório de desenhos e ganhava pouco. Comprar um skate importado era um custo muito pesado para mim. Mas eu estava decidido a satisfazer o desejo de meu filho e comecei a pensar numa solução para esse problema. Lembrei-me que no bairro da Bela Vista havia uma feira de trocas e era bem possível que ali houvesse skates usados a preço bem mais acessível.
Durante a semana juntei todos os objetos velhos e sem uso de casa e no domingo fomos eu, o Márcio e o Aquiles, (irmão do Márcio) para a feira de trocas do Bexiga. Levamos duas sacolas cheias de quinquilharias. Velhos rádios de pilhas, alguns funcionando, outros não, “hook-mens”, discos, fitas kasete, livros, roupas, objetos de adorno, etc
.



A FEIRA DO BEXIGA

A feira de trocas do Bexiga, hoje “Feira do Bexiga” existe há muitos anos. Desde a década de setenta. Ela ocupa toda a área da praça Don Orione estendendo-se pelas imediações. Nela se encontra de tudo. Livros usados, discos, cds, peças antigas e modernas de metais, vidros, cristais, porcelanas, quadros, brinquedos, antiguidades em geral, pratarias, objetos de adornos, militares, colecionáveis, etc. É um mundo! Quando comecei a frequëntá-la os comerciantes e antiquários colocavam tudo no chão, sobre panos e tapetes variados. Cada feirante tinha o seu espaço. Havia também lugares para os visitantes.
Quem organizava a feira nesse tempo era dona Jane, uma senhora de quarenta e poucos anos, valente, decidida, ativa, sem papas na língua, muito autoritária e, de certa forma, respeitada por todos.

NOSSO PRIMEIRO DIA DE FEIRA

Chegamos cedo e começamos a procurar um skate para fazermos a troca. Por incrível que pareça, nesse domingo não havia um só skate na praça!
Dona Jane quando viu-nos com as sacolas cheias de coisas velhas na mão circulando pela feira pensou que estávamos a procura de um espaço para comercializarmos nossos objetos e indicou-nos uma vaga. Disse que nesse dia poderíamos expor, trocar, vender, desde que pagássemos uma pequena taxa de manutenção. Concordei de imediato.
Eu não tinha a menor experiência nesse assunto pois era a primeira vez que eu me aventurava a negociar numa feira como essa, porém os colegas mais próximos foram solícitos em ajudar emprestando-me pano para forrar o chão, etiquetas para colocar preços nas peças, ensinando-me como proceder, etc. No final da feira havíamos vendido quase tudo.

O SEGUNDO DIA

Foi um dia inesquecível! Que marcou nossas vidas para sempre.
Fui para casa todo feliz e já sonhando com a próxima feira.
Passei a semana inteira garimpando nas casas de meus parentes e vizinhos em busca de coisas velhas e sem uso. Encontrei gaiolas de passarinhos, vasos de flores sem flores, ferraduras, ferramentas enferrujadas, brinquedos velhos, caixas decorativas, latas de biscoitos, santos de gesso, livros, revistas antigas, sapatos, tênis, calças, camisas, porta-retratos, e muito mais...
No outro Domingo lá estávamos nós três de novo. Nesse dia tivemos muita sorte. Além de vendermos quase tudo conseguimos encontrar um skate exatamente do jeito que o Márcio queria.
Logo de manhã apareceu em nossa banca um menino junto com seu pai trazendo um belo skate importado e estava querendo trocá-lo por um hook-men. Nesse dia eu havia trazido o meu para vendê-lo e o garoto adorou-o. Fizemos a troca sem pestanejar.
Fomos para casa tão felizes quanto da primeira vez.




OS NOVATOS SÃO OS QUE MAIS VENDEM

Há um fato interessante e digno de nota. Todos os novatos, nessas feiras, têm muita sorte em vender. São os que mais vendem! Todas as feiras que eu fiz pela primeira vez vendi bem. A causa disso é o mistério da “NOVIDADE”. Quem chega pela primeira vez numa feira traz o sabor da novidade. É uma cara nova, com mercadoria nova e geralmente é um leigo inexperiente sem noção de preços. Venderá barato peças que são raridades, pois geralmente ganhou de algum parente...
Eu, por exemplo, em minhas primeiras feiras vendi muitos rádios de baquelite, brinquedos de latas, canetas-tinteiro da marca Parker 51 americanas, livros de arte, santos antigos que eu ganhava dos meus tios e visinhos... Nessa época vendia por qualquer bagatela coisas que hoje não venderia por menos do que algumas centenas de dólares. Lembro-me que vendi várias canetas de prata por quantias equivalentes a vinte, trinta, cinqüenta reais, canetas que eu ganhei de tias ou comprei barato em casas de vizinhos e como eram muito velhas estavam sujas, horríveis, porem em perfeito estado e até funcionando! Essas canetas na época, principalmente as “parkers” eram vendidas nos antiquários especializados por preços que variavam de duzentos a quinhentos dólares! Na verdade eu não vendi, dei-as!


NO COMEÇO, ONDE EU ME ABASTECIA

Daí para frente todos os domingos estávamos na feira com nossa banquinha pitoresca...
Durante a semana eu trabalhava com meus desenhos sendo que na hora do almoço percorria os sebos do centro de São Paulo pois, nessa época, eles eram repletos de coisas velhas tais como rádios, máquinas de escrever, de somar, curiosidades... Isto acontecia porque os livreiros iam nas casas comparar livros e os donos ofereciam-lhes também objetos para desocupar espaço, por preços bem baratos. Comprei várias máquinas de escrever usadas nos sebos para levar à feira e vendi todas. Nos sebos comprei também muitos rádios-gravadores, bons livros de arte brasileira, pesos de papel de cristal coloridos, cartões postais do Brasil antigo, coleções de selos, etc. Tudo isso, na época, era mercadoria de venda fácil...

COMO CONSEGUI UM ESPAÇO FIXO

Havia na feira um senhor de idade, aposentado, chamado seu Luiz, que gostava muito de rádios velhos e eu sempre trazia alguns comigo. Por essa razão ficamos muito amigos. Ele colocava poucas coisas em sua banca e como eu reclamava de não ter um lugar fixo, pois os visitantes a cada domingo ocupam lugares diferentes, um dia ele convidou-me para expor minha mercadoria junto com as deles no seu espaço com a condição de eu dar-lhe uma porcentagem nas vendas. Eu pensei um pouco e achei ótima essa idéia. Principalmente porque estava vendo a hora de dona Jane negar-nos espaço. Fiquei sabendo que ela deixava os visitantes novos exporem no máximo cinco feiras... Isso porque havia muita gente nova querendo vaga e os lugares eram limitados.
Daí em diante passei a expor todos os domingos no mesmo lugar, junto com o seu Luiz.


As vezes ele faltava e eu ocupava sozinho aquela vaga.
Não demorou para que eu começasse a ficar conhecido na feira.
Todos os domingos, quando eu chegava, já havia um monte de colecionadores e comerciantes me esperando. Principalmente colecionadores de rádios, quadros, canetas e livros de arte, que é o que eu mais conseguia encontrar nas minhas garimpagens pelos sebos, ferros-velho e brechós.
É O PRESENTE QUE CRIA O FUTURO
Mas antes de continuar essa narrativa, eu devo falar um pouco do meu passado, pois como os leitores verão, o presente, sem dúvida alguma, é um produto do passado... Estamos criando hoje nosso futuro. O que você deseja, pensa, fala e faz hoje, influirá poderosamente no seu futuro! Hoje eu não tenho mais dúvidas que todos os sonhos, anseios, anelos, aquilo que a gente almejou durante muitos anos, tende a realizar-se, mais cedo ou mais tarde. Nossos sonhos de hoje serão as realidades de amanhã!

UM POUCO DO MEU PASSADO

Nasci no seio de uma família muito pobre.
Desde pequeno tive que trabalhar duro para ajudar meus pais. (Embora houve um tempo que eu revoltei-me e virei “malandro”... Disso eu falarei em outro livro.) Fiz de tudo na vida. Fui engraxate de sapatos, sapateiro, fabricante de chinelos, tintureiro, ajudante de pedreiro, treinador de galos de briga, feirante. Trabalhei em várias bancas de feira tais como barracas de biscoitos, louças, alumínios, utilidades domésticas. Fui carroceiro de ferro velho. Catava nos lixos latas, vidros, ossos, papelões, cobres, alumínios, metais, para vender a quilo. Trabalhei em fábricas de tênis, sandálias, gráficas. Fui vendedor de carnets do Sílvio Santos, vendi coleções de livros da Abril Cultural, fui boy, auxiliar de escritório, informante comercial... Depois fui desenhista em diversas firmas diferentes. Mas nunca, em toda minha vida, pensei que um dia seria marchand e antiquário! As vezes até alimentava alguns sonhos nessa área, porém eu achava que um marchand ou antiquário é pessoa de muito status, muito conhecimento e muito dinheiro. Precisa ter muita cultura, ser de família tradicional, cujos pais, avós ou tios já tenham trabalhado nessas áreas... E para ser sincero em minha família não houve ninguém desse ramo...
A verdade é que desde criança sempre gostei de olhar as vitrines das lojas de arte, decorações, bem como museus, galerias, etc..











Em minha infância sonhava em ser pintor, escultor, poeta ou escritor... Visitava periodicamente todos os museus de São Paulo. Ia em vernissages e era freqüentador assíduo da Biblioteca Pública Municipal.
Lembro-me que no centro de São Paulo, em certa época, havia muitas galerias de arte e eu freqüentava todas elas. Não perdia um só Salão Paulista de Belas Artes desde quando era na galeria Prestes Maia. Cheguei a ingressar na Associação Paulista de Belas Artes como aprendiz de desenho, quando era menino.
Todos os sábados, em dias de folga, eu ia percorrer a pé a rua Augusta de ponta a ponta olhando todas as vitrines de antiquários, lojas de presentes, galerias de arte, etc.
No Paissandu havia uma antiga loja de antiguidades cujo dono chamava-se Herman e eu passava horas observando sua vitrine, que era atulhada de biscuits, marfins, louças, relógios de bolso, jóias antigas, armas antigas, estátuas de bronze, etc.




MINHA PRIMEIRA COMPRA NO MASP

Realmente eu era um apreciador de tudo o que se relacionava com a arte. Um sonhador. Comprava todos os livros de arte baratos que eu via pela frente. Mas nunca sequer passou pela minha cabeça que um dia seria antiquário, dono de loja ou bancas em feiras de antiguidades. De vez em quando eu ia na feira de antiguidades do Masp e olhava fascinado aquelas maravilhas... Uma peça daquelas custava um salário inteiro meu, mas uma vez eu comprei uma chicarazinha japonesa estilo Satzuma, porem bicada e colada, contudo fui para casa todo feliz e empolgado e não parava de contemplá-la porque era muito bonita, cheia de carinhas de japoneses. Guardei essa chícara durante anos e acabei vendendo-a na feira do Bexiga, talvez por bem menos que eu paguei...

ARMANDO GAMELLAS, UM GRANDE ANTIQUÁRIO

Logo que o Masp inaugurou sua feira de antiguidades, um antiquário que era amigo meu na época, o Armando Gamellas, convidou-me para tomar conta de uma de suas quatro barracas. Eu recusei o convite pois teria que trabalhar todos os domingos e eu adorava ter o domingo livre para passear pelos museus e praças de São Paulo! Depois de alguns anos vi que fiz uma besteira. Devia ter aceito o convite. Se o fizesse teria mais chances de ser um grande antiquário posteriormente...
Quando eu ia visitar a casa do Armando Gamellas ficava admirando sua imensa coleção. Ele tinha de tudo em grandes quantidades. Dezenas de “budas” de todos os tipos e tamanhos, muitas tartarugas, enormes quantidades de porcelanas, marfins, ébanos, bronzes. Era um antiquário muito rico. Viajava constantemente pelo mundo todo em busca de peças raras. Esteve na África, Índia, Estados Unidos, França, Alemanha, Argentina, etc. Era um dos maiores conhecedores de tudo. Com ele aprendi muito depois que entrei no ramo. Quando eu ouvia ele falar no telefone sobre os preços das peças, milhares e milhares de dólares, eu achava que aquilo não era para “meu bico”. Nessa época eu trabalhava o mês inteiro para ganhar menos que mil dólares de salário, e só o meu aluguel consumia mais da metade desse dinheiro.
Ser antiquário, para mim, era o mesmo que desejar ser dono de um prédio na av. Paulista!

NÓS ATRAIMOS O QUE CONTEMPLAMOS


Mas a vida é muito misteriosa...
Hoje eu acredito, mais do que nunca, que todos os nossos sonhos, mesmo os mais absurdos e “impossíveis” podem se tornar realidade, desde que tenham lógica e os alimentemos por muitos e muitos anos...
Eu não sonhava em ser um comerciante de obras de arte, mas adorava contemplá-las, e isso é o mesmo que sonhar... Quem contempla um objeto com admiração e respeito, com amor e veneração, com certeza, um dia será dono de algo semelhante, pois a imagem desse objeto fecundará seu subconsciente e este dará um jeito de atrair-lhe algo parecido!
O tempo passou e eis-me agora dono de uma banca de objetos usados na feira do Bexiga, hoje uma das mais famosas feiras de antigüidades do mundo!


Na minha banca tinha de tudo. Gaiolas de passarinhos, penicos velhos, panelas usadas, peças de metal, cobre, torneiras, alicates, martelos, bugigangas, curiosidades, caixas de fósforos com propagandas, material de escritório, objetos de madeira, plástico, granito, mármore, pedra sabão, alabastro, coleções de chaveiros, moedas, notas, selos, cartões postais, armas antigas, eletrônicos, gibis, revistas, etc. Nessa época a feira do Bexiga não era como é hoje, uma tradicional feira de antiguidades. Era mais uma feira de trocas, embora houvesse no meio de toda aquela parafernália muita coisa boa... Daí o grande sucesso que vem fazendo até hoje... Nela percorrem (sem faltar um só Domingo) grandes antiquários e colecionadores de todo o Brasil e outros países. Nessa feira já foram encontradas peças que hoje estão em museus!
A verdade é que todos os domingos eu vendia razoavelmente bem. Comecei a ganhar mais dinheiro na feira que com meus desenhos, embora fosse um bom profissional na área.
Percebi que quanto mais novidades eu levasse para a feira, mais venderia. No começo eu abastecia-me nas casas dos meus parentes e vizinhos, porem, com o tempo as fontes foram secando, secando, até que secaram de vez. Aí veio a pergunta: “Onde arranjar mais mercadoria?”







UM JORNALZINHO REPLETO DE OPORTUNIDADES

Havia (e ainda há) nas bancas de jornais um jornalzinho chamado “PRIMEIRA MÃO”.
Um dia eu comprei um e levei-o para ler a noite, em casa. Havia nele muitos anúncios de vendas de coleções de tudo o que se possa imaginar. Coleções de lápis com propaganda, chaveiros, caixas de fósforos, cartões postais, abridores de latas, vidros de perfumes, latas de cervejas, caixinhas, maços de cigarros antigos, fotografias de artistas, pentes, espelhos, gibis antigos, etc., etc., etc.. Não só coleções como peças de antiguidades, quadros, livros, móveis, etc. Todos queriam vender de tudo... Fiz uma relação do que mais me interessava e no outro dia de manhã liguei para vários locais combinando com os donos das mercadorias visitas em suas residências.

MINHA PRIMEIRA COMPRA ATRAVÉS DO PRIMEIRA MÃO

Fiz um roteiro e fui à primeira casa. A pessoa queria vender uma coleção de chaveiros. Era imensa... Milhares e milhares de chaveiros de todos os tipos. De plásticos, acrílicos, madeiras, metais, couro... De times de futebol, clubes, empresas de transportes, aviação, militares, religiosos... De todas as cores, épocas, alguns antigos, mas a maioria, modernos... Gostei de cara da coleção! Era algo que eu nunca tinha visto antes. Comprei tudo na base de R$ 0,05 (cinco centavos) cada. Gastei ali uns cento e poucos reais. Dei uma parte em dinheiro e um cheque predatado. Nesse dia nem fui em outras casas. Eram muitos chaveiros. Enchi várias sacolas, peguei um taxi e fui para o meu escritório de desenhos. Passei o dia inteiro contemplando, fascinado, os chaveiros... E separando-os por assuntos... No outro dia fui a mais algumas casas. Comprei várias coisas... Discos, fitas kasete, gibis, livros... Alguns objetos pequenos de adorno, quadros, curiosidades. Quando chegou o Domingo eu tinha muitas novidades para expor na feira. Foi o maior sucesso. Vendi muitos chaveiros, sendo que os mais caros a cinco reais e os mais baratos a cinqüenta centavos.

(Nessa época a moeda corrente tinha outro nome. Os valores em reais aqui especificados são proporcionais. Desde quando entrei no ramo de antiguidades a moeda mudou de nome várias vezes. Cruzeiro, Cruzeiro Novo, Cruzado, e finalmente Real. Houve um tempo em que um almoço custava Cr$ 30.000,00 – trinta mil cruzeiros. Hoje, com trinta mil reais dá para se montar um pequeno restaurante...) Passei a dedicar-me em tempo integral na compra de coisas para levar a feira.


DE DESENHISTA À COMERCIANTE

Meu escritório de desenhos ficava dentro de uma editora de livros, jornais e revistas maçônicas de um amigo meu, o Jair Calixto. Ele cedeu-me uma de suas salas gratuitamente em troca de eu atendê-lo com prioridade. Fazia-lhe muitos desenhos de logotipos, ilustrações, capas de livros, diagramações, mas também trabalhava para outras empresas...
Trabalhei para o Jair mais de dois anos... Porém, os negócios no Bexiga começaram a render mais, dar mais lucro, e aos poucos eu fui parando com os desenhos e o escritório passou a ser apenas meu depósito particular. Não demorou para que o Jair me chamasse para uma conversa... Afinal, eu era desenhista ou comerciante? Ele não estava gostando nada de ver sua sala de desenhos transformada em depósito de bugigangas e quinquilharias... Deu-me um prazo para eu decidir entre desenhar ou comercializar. E pediu-me para arranjar um outro lugar para guardar as minhas tralhas... Eu nem discuti o assunto. Na verdade, ele estava coberto de razões... E eu resolvi parar de vez com os desenhos e dedicar-me única e exclusivamente a feira do Bexiga.
Comecei a procurar um espaço para guardar meus apetrechos.
O BAZAR DE TROCAS DA CLEMENTINA

Um dia eu ia andando a pé pela Av. Brigadeiro Luiz Antonio na altura do número mil e pouco quando dei de cara com uma galeria só de “brechós” e antiquários. Ficava próxima à rua Major Diogo, quase em frente ao extinto hotel Danúbio, do lado do Banco Itaú e em frente ao Unibanco. Mais precisamente no número 1.089. A dona dessa galeria chamava-se Clementina. Era uma senhora de aproximadamente cinqüenta anos, uma dama da alta sociedade que devido a problemas pessoais perdera toda sua fortuna e resolvera entrar para o ramo de antiguidades. Talvez começou vendendo suas peças antigas, quadros, jóias e acabou gostando tanto do assunto, como acontece com a maioria dos antiquários, que virou negociante. Essa senhora teve uma brilhante idéia. Alugou um galpão enorme e dividiu-o em vários boxes. Cerca de uns trinta mais ou menos. O da frente, que era o maior e cercado por uma grande vitrine que dava para a rua, era o dela. Nessa vitrine ela colocava suas melhores peças e jóias. Os outros boxes ela alugava para diversos comerciantes e colecionadores.
Eu nem sabia que existia algo desse tipo em São Paulo! Ao ver essa galeria eu entrei e pus-me a observar com espanto e admiração as peças ali expostas. Havia de tudo! Estatuetas de porcelana, bronzes, vidros, cristais, resinas, marmorites, marfinites, abajures, lustres, quadros... Coleções de chaveiros, canetas, lápis, cartões postais... Havia vasos de todos os tipos, pratarias, brinquedos, roupas usadas. Na verdade era um imenso brechó... Uma miniatura da feira do Bexiga.
Havia também eletrônicos, rádios velhos, televisões, toca-discos... Muitas dessas peças estavam cobertas de pó... Provavelmente estavam ali expostas a meses... Como eu era leigo no assunto, tudo me fascinava... Com o tempo, porém, fui aprendendo a discernir o comum do especial, o verdadeiro do falso, o original da imitação, e na verdade, nesse bazar da Clementina a maioria das peças eram réplicas e imitações baratas... Nada de verdadeiras antiguidades. Apenas objetos de adorno comuns, encontráveis em qualquer brechó... Contudo, no meio de tudo aquilo havia uma ou outra peça de valor, porém o preço que pediam era bem acima do valor real...
Os donos desses boxes faziam feiras todos os Domingos no Bexiga. Esses boxes além de serem suas lojas eram também seus depósitos. Por esses boxes passaram diversos antiquários e colecionadores que com o tempo tornaram-se bastante conhecidos no meio.
O bazar da Clementina era conhecido no Brasil inteiro e até fora do Brasil. Existia bem antes de existir a feira do Bexiga. Aliás, foi praticamente desse bazar que surgiu a feira do Bexiga. Ele era tão conhecido que já havia sido matéria de diversas reportagens em jornais, revistas, televisão, etc. A Clementina exibia uma lousa com colagens de diversas propagandas de seu bazar em jornais e revistas da época.
O ANTONIO MADIA

Depois de passear e observar atenciosamente todos os boxes do bazar da Clementina eu entrei num que era o maior de todos. Seu dono era o Antonio Madia. Um grande negociante que está ativo até hoje... Na época era um dos mais fortes do local. Indivíduo muito simpático, conversador e atencioso. Comecei a conversar com ele e logo ficamos amigos. Convidei-o para tomar um café no bar e aproveitei a oportunidade para perguntar-lhe como fazer para adquirir um espaço naquela galeria. Ele disse-me que conversaria com a Clementina e pediu-me para eu passar ali no dia seguinte, pois o expediente já estava terminando e logo o bazar seria fechado. Perguntou-me se eu tinha alguma coisa para vender e eu disse-lhe que sim. Ele quis ver de imediato e fomos para meu escritório. Lá ele separou algumas peças e após regatear um pouco no preço, acabou comprando-as. Ajudei-o a levá-las para seu carro e fomos ao bar tomar mais um café. Ele fumava muito...

MINHA PRIMEIRA LOJINHA




No outro dia voltei ao bazar e o Antonio Madia apresentou-me a Clementina.
Ela disse-me que teria todo o prazer em alugar-me um boxe, porém, só havia
um vago bem pequeno e próximo ao banheiro, bem lá no fundo do galpão. Mas o aluguel era bem mais barato que os outros. Fui lá examiná-lo e gostei de imediato. Para mim, que estava iniciando no ramo, era até melhor que fosse lá no fundo, bem discreto...
O pagamento do aluguel teria que ser feito adiantado, disse-me ela. Perguntei-lhe se eu precisava de abrir firma e ela disse que não. A firma era ela... Eu poderia começar a vender no mesmo dia, se quisesse. Bastava eu trazer minhas peças para o boxe e começar a negociar imediatamente. Só que no boxe não havia nenhum móvel, nenhuma estante, ou prateleira... Estava totalmente vazio. Eu teria que mobiliá-lo por inteiro...
No mesmo dia fui as casas de móveis usados próximas do local e comprei algumas estantes, um balcão de metal, uma escrivania e uma cadeira. Fui até o meu escritório de desenhos, juntei todas as minhas tralhas e levei tudo para a nova loja no bazar da Clementina. Depois de tudo arrumado vi que estava muito vazio. Eu precisava de peças grandes para preencher espaços... Mas onde arranjar essas peças se eu estava praticamente sem dinheiro, e ainda por cima endividado, pois tive que pagar um mês de aluguel adiantado, comprar móveis, pagar taxi, etc.?
Lembrei-me de uma amiga que tinha um brechó na Praça da Árvore. Ela também fazia “família mudando vende tudo” e sempre estava bem suprida...
Fui até sua loja e consegui duas sacolas cheias de peças de “prata noventa”.
Peças grandes tais como sopeiras, bandejas, aparelhos de chá, baixelas, bules avulsos, compoteiras, tudo velho, anos trinta e cinqüenta, etc. Fizemos uma relação em duas cópias, ela me deu seus preços, eu aumentei um pouco para ter um lucro e com essas peças eu enchi os espaços vazios. A lojinha ficou linda! Eu não acreditava que era dono de uma “loja de antiguidades”! É claro que de antiguidades ali não tinha nada... Mas para mim, um leigo no assunto, um iniciante, de origem pobre, aquilo tudo era uma maravilha! Eu amei essa lojinha! Depois de alguns minutos veio uma mulher, gostou de um objeto e comprou-o. Em seguida veio outra pessoa e comprou mais um objeto! Eu fiquei perplexo. Nem bem acabei de inaugurar a loja e já comecei a vender!
Isso era, sem dúvida, um ótimo augúrio.

MINHA VIDA DENTRO DA LOJINHA



Desse dia em diante comecei a vender sem parar. Todos os dias vendia alguma coisa, por menor que fosse... Eu poderia sair de casa só com o dinheiro da condução. Durante o dia, com certeza eu venderia e com as vendas teria dinheiro para almoçar, comprar mais coisas e para levar para casa... A Av. Brigadeiro é muito movimentada e o bazar da Clementina ficava bem em frente a um ponto de ônibus. A toda hora entrava gente... E como eu tinha de tudo, desde chaveiros de cinqüenta centavos até peças de centenas de dólares, eu sempre vendia alguma coisa. Aliás, todos vendiam... O bazar era uma maravilha! Todos os que tinham boxe ali dentro viviam só de compras e vendas... Não tinham outras fontes de rendas. E viviam muito bem. Tinham carros, casas próprias, telefones, etc.
No começo eu as vezes ficava com medo de ficar sem dinheiro... E para evitar isso comecei a desenhar novamente e a fazer horóscopos sob encomenda. Cobrava cinqüenta dólares por carta natal completa, com progressões e tudo... Entreguei as chaves do meu escritório ao Jair, que era o dono, e passei a desenhar no boxe. Nessa época eu tinha quatro filhos pequenos, um amamentando ainda, e eu não podia ficar sem dinheiro... Eram seis bocas para alimentar e seis pessoas para vestir, fora as prestações do apartamento, contas de luz, água, medicamentos e uma infinidade de outras despesas... Tinha portanto que ganhar dinheiro a qualquer custo!
Eu passava o dia na lojinha desenhando, fazendo horóscopos e atendendo clientes... Muitas pessoas vinham ali para vender suas coisas velhas e usadas... De vez em quando eu comparava uma peça de valor... Mas muita coisa eu deixava passar por falta de dinheiro! E os outros é que se regalavam.



NESSE RAMO, O SEGREDO DO SUCESSO É TER DINHEIRO!

Logo cedo aprendi que o segredo do sucesso nesse ramo é ter “dinheiro”. Quem tem muito dinheiro cresce cada vez mais! E quem tem pouco, ou estaciona ou míngua, até acabar quebrando... O que tem muito, compra maravilhas e vende bem, pois existem muitos ricos a procura de raridades e pagam qualquer preço pelas mesmas! Uma peça rara é muito disputada no mercado! E o que tem pouco dinheiro tem que vender suas melhores peças o mais rápido possível para não ficar “duro”, e com o tempo vai ficando sem nada... A zero! E se não for esperto e prudente acaba em situação muito difícil, a ponto de ter que fugir do estado ou do paiz para esconder-se dos credores...
Eu conheci vários indivíduos que começaram bem, depois se empolgaram, começaram a comprar exageradamente, sem conhecimento, sem experiência, acabaram comprando gato por lebre, falsificações baratas, peças mal restauradas, imitações, depois tiveram que vender tudo bem mais barato do que quando compraram e acabaram se enterrando em dívidas... Além de perderem o que tinham, tiveram que fugir para não serem presos!



EU NÃO TINHA NADA, MAS TINHA O PRINCIPAL:
VONTADE DE VENCER!


Nessa época eu não tinha nada! Nem dinheiro, nem conhecimento, nem experiência... Como passara a vida inteira trabalhando de empregado, não sabia vender, nem comprar... Mas tinha boa vontade, coragem, disposição, desejo de melhorar, aprender, vencer! Tinha intuição, sorte, desejo de aprender, espírito de aventura, gana, e nada me assustava! Se outros conseguiram, porque eu não haveria de conseguir também? Se outros venceram, porque eu não haveria de vencer?
Eu adorava lidar com esse assunto. Saia de casa sempre alegre, disposto, cheio de expectativas, cheio de esperanças...
O Antonio Madia foi uma das pessoas que auxiliou-me muito no início. Estava sempre alegre, animado e contagiava a todos com seu bom humor. Respondia-me a todas as perguntas e vivia elogiando minha lojinha. Dizia: “Para quem começou agora, está indo muito bem.” E de vez em quando comprava-me algumas peças do seu agrado.

MINHA PRIMEIRA COMPRA
NUMA “FAMÍLIA MUDANDO”

Um dia ele convidou-me para ir numa casa cujos donos iam se mudar e estavam vendendo tudo. E eu fui. Ele comprou muitas coisas. Eu comprei pouco, por falta de dinheiro, mas nesse dia aprendi uma novidade. Sempre existem pessoas mudando e precisando de vender tudo o mais rápido possível! E são nesses lugares que os antiquários e donos de brechós se abastecem! Daí em diante passamos a ir juntos em todas as “famílias mudando” e comprávamos algumas peças em sociedade... Houve um tempo em que eu era um assíduo freqüentador de “Famílias Mudando”. Nesse tempo era fácil encontrar-se verdadeiras antiguidades nesses locais... A maioria dos antiquários do Masp e de outras feiras iam nas “Famílias Mudando.” Formavam-se filas enormes na porta... Geralmente, o primeiro que chegava numerava um monte de papelinhos, um, dois, três, quatro, cinco, a perder de vista, e cada um que chegava pegava seu número. Esses números chamavam-se senhas. Até hoje é assim. O primeiro chegava por volta da meia-noite, uma hora... Dependendo da “Família” e dos objetos a venda os antiquários chegavam um dia antes para serem os primeiros da fila! Havia uns que faziam tudo para serem os primeiros, depois vendiam seus lugares pela melhor oferta. Quando a casa era aberta o pessoal entrava “feito uma boiada”... É claro que com certo cuidado para não quebrarem as coisas expostas, pois a lei é: “quebrou, pagou!” E quem fosse mais esperto e com mais conhecimento levava vantagem! Nessas vendas podia-se comprar um objeto por cem dólares e depois vendê-lo nas feiras por mil! Tempos de ouro aqueles! Hoje já não é mais assim! Devido a expansão e modernização das informações todo mundo conhece tudo e raramente deixam passar alguma coisa...


MEU PRIMEIRO CAPITAL: MIL DÓLARES!

No Domingo eu fazia feiras e durante a semana permanecia na lojinha.
Nessa época eu só trabalhava com peças baratas... Vendia bem mas também comprava muito... Só coisas baratas. E embora eu ganhasse o suficiente para pagar todas as dívidas e despesas, eu vivia descapitalizado. Não tinha crédito em nenhum banco. Não havia de quem emprestar dinheiro... Nesse tempo eu tinha um cunhado que estava bem de vida. Ele tinha algum dinheiro e emprestava-me a juros. De vez em quando eu pedia-lhe dinheiro emprestado para comprar algumas peças mais caras e ter novidades para levar ao Bexiga. Ao vendê-las, pagava o empréstimo e ainda sobrava um pouco de dinheiro.
Eu havia adquirido um telefone através do “plano de Expansão da Telesp” e, como as prestações eram pesadas para mim, convidei meu cunhado para entrar de sócio comigo. E ele topou. Um ano depois os telefones do plano de Expansão aumentaram muito o seu valor e eu, a fim de capitalizar-me, vendi minha parte ao meu cunhado o qual pagou-me cerca de mil dólares na época. Esse era o meu capital. Mil dólares!

OS BAZARES BENEFICENTES

Um dia eu descobri uma outra fonte de mercadorias. Os bazares beneficentes.
São Paulo está cheio de bazares beneficentes. Igrejas, escolas, centros espíritas, clubes, organizações sociais diversas, casas de amparo, asilos, hospitais, etc., todos esses órgãos possuem seus bazares. Alguns funcionam diariamente. Outros só nos fins de semana, uma vez por mês ou uma vez por ano... Atualmente os mais conhecidos são os das “Casas André Luiz” uma organização espírita de amparo às crianças pobres e deficientes, cujos bazares aqui em São Paulo são em número de quatro (pelo menos são os que eu conheço). Um fica em Guarulhos, na Vila Galvão, outro em Osasco, outro em São Miguel e outro no Itaim. São imensos e neles se encontra de tudo. Há também o da Unibes, situado próximo a estação metrô da Armênia. Esse Bazar é de origem judaica e um dos mais disputados pelos comerciantes. Todos os dias em sua porta existe uma fila enorme de pessoas que vão em busca de algum achado, alguma raridade ou uma boa pechincha... Eu freqüento esse bazar há mais de dez anos. Todos os dias sou um dos primeiros da fila. Nele já comprei centenas de quadros, desenhos, aquarelas, esculturas, louças, porcelanas, lustres, móveis, livros... Cheguei a montar um sebo só com os livros comprados na Unibes. Depois falarei com mais detalhes de minhas aventuras nesse bazar. Existe também o da igreja São Judas, o “Samburá”, ligado ao Lar Escola São Francisco, que fica na vila Mariana, o da entidade chamada “Cruz Verde”, o da “TNA”, outra entidade judaica no Bom Retiro. E o da Remar, que é uma entidade de âmbito internacional, o qual fica situado na vila Galvão... Quando descobri esses bazares senti-me muito feliz e extremamente seguro e confiante em minhas novas atividades profissionais, pois percebi que nunca mais ficaria sem mercadoria para vender. Os bazares vivem apinhados de tudo... Louças, cristais, vidros, utensílios domésticos, objetos de decoração, brinquedos, quadros e com um pouco de sorte sempre se acha alguma peça boa, alguma raridade... Porém é preciso ter um olho clínico, rapidez, perspicácia e muito conhecimento... E tudo nesses bazares é barato... Pelo menos antigamente era assim. Hoje os preços aumentaram muito devido a grande procura pelos antiquários... Os grandes bazares atualmente tem seus avaliadores e é difícil escapar uma boa peça por preço irrisório. Tudo é triado, selecionado e avaliado meticulosamente... No meu tempo de início de carreira os bazares eram “a grande maravilha” dos pequenos antiquários... Podia se achar um óleo de Di Cavalcante pela simples bagatela equivalente a dez reais, como já aconteceu várias vezes. Eu, por exemplo, uma vez achei num desses bazares um quadro da Mira Schendel, em técnica mista, pelo qual paguei a insignificante quantia de cinco reais. No mesmo dia vendi-o por cinco mil dólares! Depois contarei com mais detalhe essa e outras histórias.

CONSEGUI TRANSFORMAR “UM REAL”
EM SETE MIL E DUZENTOS DÓLARES!

O fato mais pitoresco e interessante que já aconteceu comigo foi eu ter conseguido transformar “um real” em sete mil e duzentos dólares!
Vou contar detalhadamente como tudo aconteceu.
Um dia eu entrei num bazar de manhã e vi jogada no chão sendo pisada uma tabuinha de uns quinze centímetros por vinte e cinco com uma estampa colorida colada numa das faces. Aparentava ser muito antiga, era pesadinha, escura e chanfrada no dorso. Como sou pintor, pensei logo em utilizá-la para pintar nela uma marinha. Fui até ao balcão, perguntei a senhora que atendia quanto era aquela tabuinha e ela disse-me que era um real. Paguei-a e fui para minha lojinha. Ao preparar-me para começar a lixar a tabuinha percebi que aquela estampa colada em cima não era uma estampa, e sim, uma pintura tão bem feita que parecia uma estampa... Essa pintura representava uma moça loura penteando-se diante de um espelho. O pintor que executou essa pequena obra de arte era um excelente miniaturista. Tudo era bem feito, nos mínimos detalhes. O rosto da moça, suas mãos, roupas, o espelho, que era desses antigos, todo trabalhado, os objetos espalhados pelo quarto, tudo era feito com perfeição meticulosa... Uma maravilha... Era uma miniatura alemã provavelmente do século dezenove. Porem, pelo fato de ter ficado no chão durante algum tempo, e ter sido pisada, possuía alguns arranhões. Levei para uma restauradora profissional, dona Sueni, e ela cobrou-me duzentos dólares para restaurar a pequena obra de arte. Quando ela entregou-me estava um mimo... Alem de restaurar ela limpou e envernizou o trabalho, realçando-lhe as cores e tornando-o muito vistoso. Meu filho que era moldureiro na época produziu uma moldura estilo europeu que enriqueceu ainda mais a pequena obra de arte.
Num belo Sábado de manhã coloquei o trabalho bem visível para ficar admirando-o quando, de repente, entrou na loja um senhor bem vestido que foi direto no quadrinho. Pegou-o na mão, examinou-o bem e perguntou-me quanto era. Eu disse-lhe: Mil dólares! Ele ficou pensativo por um momento, depois disse: --- Olha, meu amigo, no momento eu não disponho dessa quantia, mas eu tenho em casa alguns quadros que ganhei de herança de meu pai, que era pintor, e podemos fazer uma troca. Eu coleciono essas miniaturas e gostaria muito de adquirir esta.
Eu havia aprendido que um bom antiquário nunca deve rejeitar uma visita, pois nunca se sabe o que se poderá encontrar dentro de uma casa... E eu topei a parada. Aquele senhor propôs-me levar e trazer-me de carro até sua casa naquele mesmo momento. E fomos.
Chegando lá, era um belo apartamento de luxo, repleto de obras de arte, esculturas de bronze, vasos de cristal coloridos tipo Galé, marfins e as paredes estavam repletas de lindas miniaturas. Havia uma contendo somente quadros grandes. Dentre eles lembro-me de um Campos Aires, alguns “Borgueses”, “Lencines”, um lindo Clodomiro Amazonas, alguns “Canonnes”, mas o que mais me chamou a atenção foi uma pintura de uns quarenta centímetros por cinqüenta contendo um cardeal sorridente vestido de vermelho segurando uma criancinha linda no colo. A mãe estava também sorridente, ao lado, e dentro do salão onde estavam havia vários soldados e serventes espalhados pelos cantos. O salão era uma espécie de interior de palácio com belíssimos lustres, móveis dourados, belos espelhos e molduras nas paredes, cortinas floridas... As roupas dos soldados eram cheias de detalhes, e o serventes usavam roupas do tipo Luiz IV... Havia oito figuras no total. Tudo era extremamente detalhado e meticuloso, num colorido deslumbrante. A moldura desse quadro era espanhola e folheada a ouro, lindíssima! A pintura era tão bem feita e com pinceladas tão suaves que eu pensei tratar-se de uma gravura antiga. Como, porém, meu filho estava especializando-se na produção de réplicas de molduras européias as quais estavam sendo bastante procuradas pelos marchands e leiloeiros eu pensei comigo. Vou levar este. Se for gravura, a moldura vale! O senhor disse-me. “ --- Mas meu filho, isto é uma gravura... Você vai levar desvantagem na troca.” Eu repliquei. “ --- Não faz mal. Gostei desta moldura! Vou ficar com este mesmo.” Ao que o senhor retrucou. “Tudo bem, se você prefere este, vá lá, porem depois não vá querer desfazer a troca. Não gosto de voltar atrás.” Eu respondi. “--- Fique tranqüilo. Eu estou plenamente satisfeito.”
Ao chegar na loja mostrei o quadro ao meu filho Márcio e ele disse-me. “--- Pai, você tem muita sorte! Este é um autêntico quadro de Salvador Sanches Barbudo. Vale milhares de dólares dólares!” Para resumir a história, acabei vendendo-o através de um intermediário por oito mil dólares. Como tive que pagar dez por cento, fiquei com sete mil e duzentos. Vendi o quadro por esse preço porque na época estava muito endividado e precisando capitalizar-me...


Voltando ao Bazar da Clementina, lá estava eu, dono de uma lojinha, (eu via meu boxe como se fosse uma lojinha) muito feliz da vida!
Um dia eu ia passando pelo centro de São Paulo e vi uma placa: “COMPRO PRATA POR PESO - PAGO BEM.” Fui ao local e perguntei ao dono quanto ele pagava o quilo. Ele disse-me: “Cento e oitenta mil cruzeiros”, hoje quatrocentos reais, cerca de 160 dólares.
Fui até a loja, peguei todas as pratas que eu tinha, pesei-as e dava uns dez quilos. A quatrocentos reais o quilo, tudo daria uns quatro mil reais. Não pensei duas vezes. Enchi várias sacolas de prata e fui até o centro vendê-las. Que decepção! O comprador observou aquelas pratas todas, riu e disse-me. Essas não são pratas, mas sim, metal banhado a prata, ou seja, “prata noventa”. Não compramos. Perguntei-lhe quanto valia tudo aquilo. Ele disse-me uma quantia tão irrisória que preferia jogar tudo fora do que vender por aquela soma... Nesse dia aprendi a distinguir prata de lei de prata noventa!
Por incrível que pareça muita gente ainda hoje confunde prata de lei com prata noventa...
Eu tinha muito que aprender ainda!

CAIXAS DE PENAS DE OURO!

Certa ocasião eu entrei num sebo que ficava no sétimo andar de um prédio na av. Casper Líbero em busca de livros de artes. O dono desse sebo chamava-se sr. Arrigo. Era um velhinho muito simpático com mais de setenta anos (hoje falecido). Negociava com livros desde a juventude. Era especializado em livros técnicos. Embora seu sebo fosse no sétimo andar, sem qualquer vitrine ou porta para a rua, tão oculto que somente as pessoas do ramo conhecia-o, ele era um dos que mais vendia livros na época. Sua livraria estava sempre cheia de clientes. Com ele aprendi que não há necessidade de se ter um bom ponto para se realizar boas vendas. O que é necessário é ter boa mercadoria com bom preço...
Eu estava dentro do seu sebo garimpando quando olhei para cima e vi sobre as estantes dezenas de caixas muito antigas semelhantes a caixas de sapatos. Perguntei-lhe o que eram aquelas caixas e ele respondeu-me que eram caixas de penas de escrever. Pedi para examinar uma e ele deu-me um mostruário com cerca de quarenta penas diferentes. Como eu desenhava e de vez em quando precisava dessas penas, perguntei a ele se ele me vendia uma daquelas caixas. Ele respondeu-me que sim e autorizou-me a pegar uma escada, subir nela e pegar uma caixa de penas. Quando eu coloquei a mão na caixa vi que ela estava com um dedo de poeira em cima. Desci-a com cuidado, fui lá fora e joguei a poeira no lixo. Depois fui ao banheiro, passei um pano úmido na caixa e lavei as mãos. Abri a caixa e vi que dentro dela havia cerca de vinte e cinco caixinhas de penas com cem penas cada. As caixinhas estavam envolvidas em celofane e muito bem conservadas. Eram da década de trinta e da marca “PRESBÍTERO”. Perguntei ao sr. Arrigo onde ele havia conseguido aquelas caixas e ele respondeu-me que à muitos anos atrás, na década de quarenta, ele, além de livros técnicos importados, fornecia também material de papelaria aos escritórios e tabeliães de São Paulo. Os tabeliães usavam muito as penas pois nessa época não existiam canetas esferográficas. Porem, quando inventaram as canetas esferográficas, aquelas penas deixaram de ser usadas nos tabeliães e encalharam. O sr. Arrigo já vinha guardando-as cerca de quarenta anos...
Perguntei-lhe por quanto ele me venderia uma caixa e ele disse-me um preço tão irrisório (25 reais) que comprei três caixas ( 75 reais). Cada caixa de pena saiu-me por um real cada, de forma que cada pena custou-me um centavo apenas. No Bexiga os comerciantes vendiam essas penas a um real cada. Se em cada caixa tinha cem penas, isso significa que cada caixa valia cem reais, e eu comprei 75 caixas por apenas setenta e cinco reais! Essa compra foi, sem dúvida alguma, um dos melhores negócios que já fiz até hoje, porque depois disso passei cerca de um ano comprando todos os meses várias caixas de penas do sr. Arrigo. Com essas penas ganhei muito dinheiro!


No primeiro Domingo após essa compra levei algumas caixinhas de penas para a feira e etiquetei-as a cinqüenta reais cada. Coloquei meia dúzia na banca e ocultei as outras.
Nisso veio um senhor louro, muito simpático, pegou as seis caixas de penas da banca e perguntou-me quanto eu lhe fazia para levar todas. Fiz-lhe a quarenta reais cada. Ele fez um cheque e deu-me seu cartão dizendo-me: “--- Se você achar mais dessas penas leve ao meu escritório que eu compro todas!.” No cartão estava seu nome: “Sérgio Longo – Compra-se quadros europeus, vidros muranos, isqueiros antigos, curiosidades e antiguidades em geral” Sua loja ficava na Av. Paulista, próxima ao Masp. Nesse Domingo além de ter faturado logo de manhã 240 reais do Sérgio Longo vendi outras coisas e a tarde estava com os bolsos cheios de dinheiro e cheques...
No outro dia lá estava eu no escritório do Sérgio Longo com uma caixa grande de penas contendo vinte e cinco caixinhas. Fiz-lhe um bom desconto e ele comprou-me todas e deu-me um gordo cheque de oitocentos reais. De vinte e cinco fiz oitocentos! Quase três mil por cento de lucro. Que negócio no mundo haveria de ser mais vantajoso? E saber que no sebo do sr. Arrigo havia dezenas de caixas de penas me esperando... Nesse dia nem quis trabalhar mais... Passei a manhã toda passeando por São Paulo, visitando lojas de decorações, antiquários, sebos. Almocei num restaurante de luxo, comprei roupas novas para mim, e a tarde fui ao cinema ver um belo filme...
Depois fui para casa todo feliz da vida! Comecei a perceber que havia encontrado um meio de vida maravilhoso! Que mundo fascinante é esse dos antiquários! Que alegria, que prazer quando se acha uma raridade por preço irrisório, como aconteceu comigo nas caixas de penas... Todos saímos ganhando. O Sr. Arrigo ia acabar jogando, com o tempo, todas aquelas caixas no lixo... Pois estavam em seu poder já fazia quarenta anos... Provavelmente ele deve ter se sentido muito feliz em achar um comprador para uma mercadoria encalhada em seu sebo a quarenta anos! Eu vendi as caixas com um lucro de três mil por cento! E ainda por cima o Sérgio Longo disse-me que compraria todas as caixas que eu lhe levasse. Deu-me vontade de ir no Sebo do Sr Arrigo, comprar uma dez caixas e levar tudo ao Sérgio Longo. Mas pensei comigo... Devo ser muito prudente para não estragar tudo. O sr. Arrigo, apesar de ser um velhinho muito simpático, era muito esperto... Se ele soubesse o valor real daquelas caixas de penas jamais teria me vendido por apenas um real cada... No mínimo pediria vinte. Na verdade ele não estava gostando muito de vender-me as caixas de penas... Não pelo dinheiro, mas porque estavam muito empoeiradas, e era preciso pegar uma escada, subir nas estantes, e aquela poeira toda poderia espalhar-se pela loja, incomodar os clientes... A loja estava sempre cheia... O que ele queria mesmo era vender seus livros. Para conseguir as caixas eu tinha que comprar alguns livros... Na terceira vez que fui ao seu sebo comprar caixas de penas ele não quis vender-me. Disse-me para ir lá Sábado, após o meio dia, que ele estaria com o sebo fechado e eu poderia pegar as caixas sem incomodar seus clientes... E foi o que fiz. Daí para frente passei a ir todos os sábados e comprar de três a cinco caixas grandes. Mais do que isso ele não me vendia. Era um velhinho muito esquisito... Ele disse-me que em certa época ficou rico vendendo aquelas caixas de penas. Só ele tinha aqui no Brasil e fornecia a todos os cartórios, tabeliães, escolas, escritórios, calígrafos do Brasil. Devo ter comprado no total umas cinquenta caixas grandes de penas... Depois, não sei porque, recusou-se a vender-me mais... Quanto ao Sérgio Longo eu não poderia levar-lhe muitas caixas de uma vez. Tinha que demonstrar que eram muito raras e difíceis de serem encontradas. Se ele soubesse que havia tantas no Sr. Arrigo, e do preço que eu pagava, jamais me teria pago o que pagou...
Além do Sérgio Longo, vendi essas caixas de penas a muitas firmas que trabalhavam com desenhos na época. Todos os dias eu saia de casa e visitava duas, três, quatro empresas, e a cada uma delas vendia de duas a três caixas de penas, a cem reais cada... Depois passei a vendê-las aos calígrafos.
Essas caixas, na verdade, levantaram meu moral e ajudaram a capitalizar-me! Depois fiquei sabendo pelo próprio Sérgio Longo que ele vendia as caixas de penas a um senhor da Itália por dez vezes mais o que pagava a mim! E provavelmente esse senhor da Itália devia vender a outros por muito mais!
Havia um belo livro de canetas tinteiros antigas, se não me engano, “A História da Caneta no Mundo”, publicado na Itália, e numa das paginas desse livro havia uma foto da caixa de pena em tamanho grande e a história dessa fábrica. Até antes da Segunda Guerra Mundial era uma das maiores fábricas do paiz. Fornecia penas ao mundo inteiro. Durante a Segunda Guerra essa fábrica foi confiscada pelo governo para fabricar armas e munições. E se não me engano acabou sendo bombardeada, e depois da invenção da caneta esferográfica fechou de vez...

FIM DO LIVRO PRIMEIRO

(Continua no próximo blog) -Eu e o Bexiga 2