domingo, 17 de junho de 2007



Voltando ao Bazar da Clementina, lá estava eu, dono de uma lojinha, (eu via meu boxe como se fosse uma lojinha) muito feliz da vida!
Um dia eu ia passando pelo centro de São Paulo e vi uma placa: “COMPRO PRATA POR PESO - PAGO BEM.” Fui ao local e perguntei ao dono quanto ele pagava o quilo. Ele disse-me: “Cento e oitenta mil cruzeiros”, hoje quatrocentos reais, cerca de 160 dólares.
Fui até a loja, peguei todas as pratas que eu tinha, pesei-as e dava uns dez quilos. A quatrocentos reais o quilo, tudo daria uns quatro mil reais. Não pensei duas vezes. Enchi várias sacolas de prata e fui até o centro vendê-las. Que decepção! O comprador observou aquelas pratas todas, riu e disse-me. Essas não são pratas, mas sim, metal banhado a prata, ou seja, “prata noventa”. Não compramos. Perguntei-lhe quanto valia tudo aquilo. Ele disse-me uma quantia tão irrisória que preferia jogar tudo fora do que vender por aquela soma... Nesse dia aprendi a distinguir prata de lei de prata noventa!
Por incrível que pareça muita gente ainda hoje confunde prata de lei com prata noventa...
Eu tinha muito que aprender ainda!

CAIXAS DE PENAS DE OURO!

Certa ocasião eu entrei num sebo que ficava no sétimo andar de um prédio na av. Casper Líbero em busca de livros de artes. O dono desse sebo chamava-se sr. Arrigo. Era um velhinho muito simpático com mais de setenta anos (hoje falecido). Negociava com livros desde a juventude. Era especializado em livros técnicos. Embora seu sebo fosse no sétimo andar, sem qualquer vitrine ou porta para a rua, tão oculto que somente as pessoas do ramo conhecia-o, ele era um dos que mais vendia livros na época. Sua livraria estava sempre cheia de clientes. Com ele aprendi que não há necessidade de se ter um bom ponto para se realizar boas vendas. O que é necessário é ter boa mercadoria com bom preço...
Eu estava dentro do seu sebo garimpando quando olhei para cima e vi sobre as estantes dezenas de caixas muito antigas semelhantes a caixas de sapatos. Perguntei-lhe o que eram aquelas caixas e ele respondeu-me que eram caixas de penas de escrever. Pedi para examinar uma e ele deu-me um mostruário com cerca de quarenta penas diferentes. Como eu desenhava e de vez em quando precisava dessas penas, perguntei a ele se ele me vendia uma daquelas caixas. Ele respondeu-me que sim e autorizou-me a pegar uma escada, subir nela e pegar uma caixa de penas. Quando eu coloquei a mão na caixa vi que ela estava com um dedo de poeira em cima. Desci-a com cuidado, fui lá fora e joguei a poeira no lixo. Depois fui ao banheiro, passei um pano úmido na caixa e lavei as mãos. Abri a caixa e vi que dentro dela havia cerca de vinte e cinco caixinhas de penas com cem penas cada. As caixinhas estavam envolvidas em celofane e muito bem conservadas. Eram da década de trinta e da marca “PRESBÍTERO”. Perguntei ao sr. Arrigo onde ele havia conseguido aquelas caixas e ele respondeu-me que à muitos anos atrás, na década de quarenta, ele, além de livros técnicos importados, fornecia também material de papelaria aos escritórios e tabeliães de São Paulo. Os tabeliães usavam muito as penas pois nessa época não existiam canetas esferográficas. Porem, quando inventaram as canetas esferográficas, aquelas penas deixaram de ser usadas nos tabeliães e encalharam. O sr. Arrigo já vinha guardando-as cerca de quarenta anos...
Perguntei-lhe por quanto ele me venderia uma caixa e ele disse-me um preço tão irrisório (25 reais) que comprei três caixas ( 75 reais). Cada caixa de pena saiu-me por um real cada, de forma que cada pena custou-me um centavo apenas. No Bexiga os comerciantes vendiam essas penas a um real cada. Se em cada caixa tinha cem penas, isso significa que cada caixa valia cem reais, e eu comprei 75 caixas por apenas setenta e cinco reais! Essa compra foi, sem dúvida alguma, um dos melhores negócios que já fiz até hoje, porque depois disso passei cerca de um ano comprando todos os meses várias caixas de penas do sr. Arrigo. Com essas penas ganhei muito dinheiro!

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