No outro dia voltei ao bazar e o Antonio Madia apresentou-me a Clementina.
Ela disse-me que teria todo o prazer em alugar-me um boxe, porém, só havia
um vago bem pequeno e próximo ao banheiro, bem lá no fundo do galpão. Mas o aluguel era bem mais barato que os outros. Fui lá examiná-lo e gostei de imediato. Para mim, que estava iniciando no ramo, era até melhor que fosse lá no fundo, bem discreto...
O pagamento do aluguel teria que ser feito adiantado, disse-me ela. Perguntei-lhe se eu precisava de abrir firma e ela disse que não. A firma era ela... Eu poderia começar a vender no mesmo dia, se quisesse. Bastava eu trazer minhas peças para o boxe e começar a negociar imediatamente. Só que no boxe não havia nenhum móvel, nenhuma estante, ou prateleira... Estava totalmente vazio. Eu teria que mobiliá-lo por inteiro...
No mesmo dia fui as casas de móveis usados próximas do local e comprei algumas estantes, um balcão de metal, uma escrivania e uma cadeira. Fui até o meu escritório de desenhos, juntei todas as minhas tralhas e levei tudo para a nova loja no bazar da Clementina. Depois de tudo arrumado vi que estava muito vazio. Eu precisava de peças grandes para preencher espaços... Mas onde arranjar essas peças se eu estava praticamente sem dinheiro, e ainda por cima endividado, pois tive que pagar um mês de aluguel adiantado, comprar móveis, pagar taxi, etc.?
Lembrei-me de uma amiga que tinha um brechó na Praça da Árvore. Ela também fazia “família mudando vende tudo” e sempre estava bem suprida...
Fui até sua loja e consegui duas sacolas cheias de peças de “prata noventa”.
Peças grandes tais como sopeiras, bandejas, aparelhos de chá, baixelas, bules avulsos, compoteiras, tudo velho, anos trinta e cinqüenta, etc. Fizemos uma relação em duas cópias, ela me deu seus preços, eu aumentei um pouco para ter um lucro e com essas peças eu enchi os espaços vazios. A lojinha ficou linda! Eu não acreditava que era dono de uma “loja de antiguidades”! É claro que de antiguidades ali não tinha nada... Mas para mim, um leigo no assunto, um iniciante, de origem pobre, aquilo tudo era uma maravilha! Eu amei essa lojinha! Depois de alguns minutos veio uma mulher, gostou de um objeto e comprou-o. Em seguida veio outra pessoa e comprou mais um objeto! Eu fiquei perplexo. Nem bem acabei de inaugurar a loja e já comecei a vender!
Isso era, sem dúvida, um ótimo augúrio.
MINHA VIDA DENTRO DA LOJINHA
Desse dia em diante comecei a vender sem parar. Todos os dias vendia alguma coisa, por menor que fosse... Eu poderia sair de casa só com o dinheiro da condução. Durante o dia, com certeza eu venderia e com as vendas teria dinheiro para almoçar, comprar mais coisas e para levar para casa... A Av. Brigadeiro é muito movimentada e o bazar da Clementina ficava bem em frente a um ponto de ônibus. A toda hora entrava gente... E como eu tinha de tudo, desde chaveiros de cinqüenta centavos até peças de centenas de dólares, eu sempre vendia alguma coisa. Aliás, todos vendiam... O bazar era uma maravilha! Todos os que tinham boxe ali dentro viviam só de compras e vendas... Não tinham outras fontes de rendas. E viviam muito bem. Tinham carros, casas próprias, telefones, etc.
No começo eu as vezes ficava com medo de ficar sem dinheiro... E para evitar isso comecei a desenhar novamente e a fazer horóscopos sob encomenda. Cobrava cinqüenta dólares por carta natal completa, com progressões e tudo... Entreguei as chaves do meu escritório ao Jair, que era o dono, e passei a desenhar no boxe. Nessa época eu tinha quatro filhos pequenos, um amamentando ainda, e eu não podia ficar sem dinheiro... Eram seis bocas para alimentar e seis pessoas para vestir, fora as prestações do apartamento, contas de luz, água, medicamentos e uma infinidade de outras despesas... Tinha portanto que ganhar dinheiro a qualquer custo!
Eu passava o dia na lojinha desenhando, fazendo horóscopos e atendendo clientes... Muitas pessoas vinham ali para vender suas coisas velhas e usadas... De vez em quando eu comparava uma peça de valor... Mas muita coisa eu deixava passar por falta de dinheiro! E os outros é que se regalavam.
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