No primeiro Domingo após essa compra levei algumas caixinhas de penas para a feira e etiquetei-as a cinqüenta reais cada. Coloquei meia dúzia na banca e ocultei as outras.
Nisso veio um senhor louro, muito simpático, pegou as seis caixas de penas da banca e perguntou-me quanto eu lhe fazia para levar todas. Fiz-lhe a quarenta reais cada. Ele fez um cheque e deu-me seu cartão dizendo-me: “--- Se você achar mais dessas penas leve ao meu escritório que eu compro todas!.” No cartão estava seu nome: “Sérgio Longo – Compra-se quadros europeus, vidros muranos, isqueiros antigos, curiosidades e antiguidades em geral” Sua loja ficava na Av. Paulista, próxima ao Masp. Nesse Domingo além de ter faturado logo de manhã 240 reais do Sérgio Longo vendi outras coisas e a tarde estava com os bolsos cheios de dinheiro e cheques...
No outro dia lá estava eu no escritório do Sérgio Longo com uma caixa grande de penas contendo vinte e cinco caixinhas. Fiz-lhe um bom desconto e ele comprou-me todas e deu-me um gordo cheque de oitocentos reais. De vinte e cinco fiz oitocentos! Quase três mil por cento de lucro. Que negócio no mundo haveria de ser mais vantajoso? E saber que no sebo do sr. Arrigo havia dezenas de caixas de penas me esperando... Nesse dia nem quis trabalhar mais... Passei a manhã toda passeando por São Paulo, visitando lojas de decorações, antiquários, sebos. Almocei num restaurante de luxo, comprei roupas novas para mim, e a tarde fui ao cinema ver um belo filme...
Depois fui para casa todo feliz da vida! Comecei a perceber que havia encontrado um meio de vida maravilhoso! Que mundo fascinante é esse dos antiquários! Que alegria, que prazer quando se acha uma raridade por preço irrisório, como aconteceu comigo nas caixas de penas... Todos saímos ganhando. O Sr. Arrigo ia acabar jogando, com o tempo, todas aquelas caixas no lixo... Pois estavam em seu poder já fazia quarenta anos... Provavelmente ele deve ter se sentido muito feliz em achar um comprador para uma mercadoria encalhada em seu sebo a quarenta anos! Eu vendi as caixas com um lucro de três mil por cento! E ainda por cima o Sérgio Longo disse-me que compraria todas as caixas que eu lhe levasse. Deu-me vontade de ir no Sebo do Sr Arrigo, comprar uma dez caixas e levar tudo ao Sérgio Longo. Mas pensei comigo... Devo ser muito prudente para não estragar tudo. O sr. Arrigo, apesar de ser um velhinho muito simpático, era muito esperto... Se ele soubesse o valor real daquelas caixas de penas jamais teria me vendido por apenas um real cada... No mínimo pediria vinte. Na verdade ele não estava gostando muito de vender-me as caixas de penas... Não pelo dinheiro, mas porque estavam muito empoeiradas, e era preciso pegar uma escada, subir nas estantes, e aquela poeira toda poderia espalhar-se pela loja, incomodar os clientes... A loja estava sempre cheia... O que ele queria mesmo era vender seus livros. Para conseguir as caixas eu tinha que comprar alguns livros... Na terceira vez que fui ao seu sebo comprar caixas de penas ele não quis vender-me. Disse-me para ir lá Sábado, após o meio dia, que ele estaria com o sebo fechado e eu poderia pegar as caixas sem incomodar seus clientes... E foi o que fiz. Daí para frente passei a ir todos os sábados e comprar de três a cinco caixas grandes. Mais do que isso ele não me vendia. Era um velhinho muito esquisito... Ele disse-me que em certa época ficou rico vendendo aquelas caixas de penas. Só ele tinha aqui no Brasil e fornecia a todos os cartórios, tabeliães, escolas, escritórios, calígrafos do Brasil. Devo ter comprado no total umas cinquenta caixas grandes de penas... Depois, não sei porque, recusou-se a vender-me mais... Quanto ao Sérgio Longo eu não poderia levar-lhe muitas caixas de uma vez. Tinha que demonstrar que eram muito raras e difíceis de serem encontradas. Se ele soubesse que havia tantas no Sr. Arrigo, e do preço que eu pagava, jamais me teria pago o que pagou...
Além do Sérgio Longo, vendi essas caixas de penas a muitas firmas que trabalhavam com desenhos na época. Todos os dias eu saia de casa e visitava duas, três, quatro empresas, e a cada uma delas vendia de duas a três caixas de penas, a cem reais cada... Depois passei a vendê-las aos calígrafos.
Essas caixas, na verdade, levantaram meu moral e ajudaram a capitalizar-me! Depois fiquei sabendo pelo próprio Sérgio Longo que ele vendia as caixas de penas a um senhor da Itália por dez vezes mais o que pagava a mim! E provavelmente esse senhor da Itália devia vender a outros por muito mais!
Havia um belo livro de canetas tinteiros antigas, se não me engano, “A História da Caneta no Mundo”, publicado na Itália, e numa das paginas desse livro havia uma foto da caixa de pena em tamanho grande e a história dessa fábrica. Até antes da Segunda Guerra Mundial era uma das maiores fábricas do paiz. Fornecia penas ao mundo inteiro. Durante a Segunda Guerra essa fábrica foi confiscada pelo governo para fabricar armas e munições. E se não me engano acabou sendo bombardeada, e depois da invenção da caneta esferográfica fechou de vez...
FIM DO LIVRO PRIMEIRO
(Continua no próximo blog) -Eu e o Bexiga 2
Um comentário:
Boa tarde, Abel!! Eis que após três anos encontro a matéria de seu blog meio que por acaso. Sua história é muito interessante. Pois, adoro encontrar coisas interessantes para compor a decoração do meu apartamento. Procurei a continuação da história, mas não encontrei. Você deu continuidade? Se sim me diga como ler a continuação da história. Parabéns por sua perseverança. Isso me deixa com grande esperança de realizar meus sonhos também. Que Deus te ilumine sempre, mais do que já tenha iluminado. Até!! Lílian Azevedo
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